
— O menino chegou e me chamou de macaca. Aí eu fiquei meio… vou contar para a diretora, mas enfim, não contei, porque para mim foi algo besta. Mas eu sei que não foi.
Essa fala, dita por uma aluna entrevistada no documentário “A cor do invisível”, produzido pelos estudantes do 3º ano do Centro de Excelência Dr. Milton Dortas, em Simão Dias (SE), ilustra a vivência de muitos jovens negros vítimas de racismo, seja explícito ou velado. O sofrimento não está apenas nas palavras agressivas, mas também no silêncio que se segue, no peso de não poder expressar o que se sente.
Dar visibilidade a essas experiências e criar um espaço onde as vozes dos estudantes, frequentemente silenciadas, sejam ouvidas e reconhecidas é o objetivo do projeto “Fala, Milton! – Edição: Documente-se!”. Ele é composto por três vídeos que abordam questões étnico-raciais, identidade negra e resistência. Filmados e roteirizados pelos próprios estudantes, que também realizaram a pesquisa, os vídeos permitiram que eles se tornassem protagonistas de suas histórias.
Para desenvolver o projeto, realizado na disciplina eletiva Documente-se!, contei com o apoio dos professores e co-orientadores Uedson Dantas, de biologia, e Hudson Santos, de geografia. O que nós queríamos com essa atividade era colocar os estudantes no centro da discussão antirracista.
Panorama da escola
A escola, com público predominantemente negro e pardo, afirma-se como espaço de resistência e identidade. Muitos estudantes expressam com orgulho sua cultura por meio de adereços, penteados afros e da vivência de religiões de matrizes africanas no cotidiano escolar.
Essa naturalidade é fruto de um processo anterior de construção de práticas pedagógicas antirracistas, que já valorizavam o uso de indumentárias religiosas e o respeito aos rituais e preceitos seguidos por alguns alunos, inclusive dentro do ambiente escolar.
A escola atende um número significativo de estudantes oriundos da comunidade quilombola Sítio Alto, localizada a cerca de oito quilômetros do centro urbano de Simão Dias. Essa presença marca a identidade cultural da instituição e torna urgente a adoção de práticas pedagógicas voltadas ao letramento racial (capacidade de reconhecer, analisar e enfrentar o racismo nas relações cotidianas). Tais práticas devem também contribuir para a desconstrução do racismo estrutural (conjunto de desigualdades e discriminações historicamente enraizadas nas instituições e nas relações sociais) e para a construção de relações étnico-raciais saudáveis, dentro e fora do ambiente escolar.
Passo a passo da pesquisa
Para mapear a percepção dos alunos, aplicamos um questionário que indicou a predominância de estudantes negros e pardos na escola, representando mais de 60% dos respondentes. O resultado subsidiou a elaboração dos roteiros dos documentários.
A pesquisa apontou que cerca de 30% dos alunos já haviam presenciado ou sofrido atitudes racistas dentro da escola, evidenciando a permanência de práticas discriminatórias em um espaço que deveria ser de acolhimento. O dado reforça a necessidade de formação continuada para docentes. Fora da escola, muitos estudantes também relataram ter presenciado discriminação racial, o que reafirma a importância da escola como espaço de resistência e de construção de narrativas contra-hegemônicas, ou seja, que desafiam a versão dominante da história.
A maioria dos estudantes discute o racismo nas aulas de ciências humanas, linguagens e ciências da natureza, mas há uma demanda por maior sistematização e aprofundamento nas discussões antirracistas. Além disso, os alunos concordam amplamente que a cor da pele influencia diretamente a exposição a formas de violência, tanto simbólicas quanto físicas.
Por fim, 95,6% dos alunos reconheceram que o racismo é um problema enraizado na sociedade brasileira, posicionando-se como sujeitos ativos na luta antirracista e enfatizando a importância da escola no desenvolvimento dessa consciência cidadã.
Apoio audiovisual
Eu sempre começo a aula apresentando o tema central. Em seguida, debatemos, realizamos rodas de conversa e alinhamos as ideias em roteiros, focando na construção de uma narrativa coesa e impactante.
De maneira colaborativa, os estudantes participaram ativamente de todas as etapas da produção audiovisual, aprendendo sobre linguagem cinematográfica, captação de imagens pelo celular, elaboração de roteiro e ética documental. Eles definiram os temas, realizaram pesquisas, escolheram os entrevistados, organizaram as cenas, fizeram as gravações e editaram o material. As entrevistas foram planejadas para transmitir as mensagens que queríamos passar, e na edição, definimos o uso de um programa específico de vídeo.
Esses conhecimentos foram adquiridos por meio de aulas técnicas que abordaram desde a captação de áudio e vídeo (com ênfase na angulação de câmera) até a iluminação e o enquadramento de cenas, além de práticas sobre contextualização e narrativa cinematográfica.
A etapa seguinte concentrou-se na elaboração do roteiro e no planejamento da produção, que envolveu a organização das cenas, definição dos entrevistados, definição da linguagem e do recorte narrativo adequado ao público-alvo, escolha dos espaços de gravação e a listagem dos equipamentos necessários.
Embora no início houvesse insegurança técnica, os estudantes ganharam autonomia ao longo do processo e passaram a compreender o potencial da produção audiovisual como uma ferramenta de expressão. Apesar de não estarem distantes da tecnologia, o receio inicial estava relacionado ao produto final. Com as orientações dos professores, perceberam que o documentário é, antes de tudo, uma forma de expressão e resistência.
O processo culminou na gravação em campo, seguido pela edição do material bruto, onde a turma selecionou as imagens, escolheu as trilhas sonoras e utilizou recursos de montagem para garantir fluidez e coerência na obra final.
Colocando a mão na massa
Antes das gravações, os estudantes participaram de quatro oficinas promovidas pela Diretoria Regional de Educação 02, que abordaram temas como liderança ativa, impacto social, gestão de tempo e políticas públicas. Com essas formações, os alunos passaram a compreender melhor seu papel como agentes de transformação social capazes de usar suas vozes para promover mudanças.
Não foram só as formações que os ajudaram nessa mudança de perspectiva. As aulas de ciências humanas já estimulavam a construção de uma consciência crítica, o que fez com que os alunos se sentissem preparados para se posicionar sobre as questões discutidas.
Nas aulas de geografia, discutia-se o racismo estrutural, focando no conceito de marginalização geográfica, situação na qual populações negras foram historicamente alocadas em territórios com menos acesso a serviços e oportunidades. A área de biologia apoiou a iniciativa de forma espontânea, com o professor se engajando por identificação com a causa. Já nas aulas de filosofia, o projeto debateu como as ideologias são construídas socialmente e influenciam a percepção de identidade e pertencimento.
Com duas aulas semanais dedicadas às disciplinas eletivas, os alunos também dedicaram tempo extraescolar para entrevistas, pesquisas e edição dos documentários.
Da comunidade ao telão
Em toda a trajetória do projeto, não houve manifestações de teor racistas. Ao contrário, a iniciativa gerou um ambiente em que os alunos se sentiram seguros para relatar experiências de discriminação e de identificação, especialmente para os alunos oriundos da comunidade quilombola Sítio Alto. A visita à comunidade foi a principal etapa de captação das imagens e revelou a curiosidade, a atenção e, sobretudo, o respeito com que os estudantes se envolveram.
Com cerca de 100 famílias, o território é um exemplo de resistência e preservação das tradições afro-brasileiras. Os moradores relatam que seus ancestrais teriam origem na antiga fazenda “Rio dos Negros”, onde viveram pessoas escravizadas até o final do século 19. O nome “Sítio Alto” foi oficializado em 1995 com a fundação da associação comunitária, mas antes disso, o local era conhecido por denominações estigmatizadas.
Os estudantes participaram de rodas de conversa com os moradores, ouvindo relatos emocionantes sobre a origem da comunidade. A líder comunitária, Mestra Josefa Santos de Jesus, foi uma das figuras centrais desses relatos. Benzedeira, guardiã de sementes crioulas e preservadora das tradições do quilombo, Mestra Josefa é uma referência em movimentos sociais, especialmente na defesa da cultura popular, da saúde e da agricultura familiar. Sua principal expressão cultural é a Dança de Roda, que ela lidera como símbolo de identidade, resistência e união entre gerações.
Conhecer as práticas agroecológicas, visitar o museu comunitário e ouvir os relatos de resistência da comunidade foi uma experiência transformadora para os estudantes. Eles perceberam, na prática, a importância de preservar a memória cultural e histórica da população negra. Para estudantes que participam de religiões afro-brasileiras, esse foi um momento de autoafirmação, permitindo que se sentissem mais à vontade para expressar sua identidade com orgulho.
Os documentários
O projeto resultou na elaboração de três curtas:
“A cor do invisível”
Este documentário explora o sofrimento emocional e psicológico causado pelo racismo estrutural, muitas vezes invisível, mas que afeta profundamente o cotidiano das pessoas. A narrativa destaca não só as consequências dessa dor invisível, mas também a luta por visibilidade e a resistência de figuras como Marielle Franco e Carlos Marighella.
O filme dá voz aos jovens negros que, mesmo em meio à discriminação, afirmam sua identidade com orgulho. A falta de visibilidade histórica das pessoas negras na cidade também é discutida, com relatos como o de Maria do Carmo, que questiona por que as histórias de sua comunidade não são contadas.
“Amanheceremos”
Este documentário aborda a resistência contra o racismo, destacando a importância de afirmar a identidade negra por meio de práticas culturais como gastronomia, religiões, tranças e capoeira. Também discute o aumento dos casos de racismo no Brasil e a luta contínua por justiça, utilizando a cultura como ferramenta de resistência.
O documentário enfatiza o papel da educação na desconstrução de estereótipos e na valorização da cultura afro-brasileira e indígena, além de abordar as dificuldades da implementação das leis que asseguram o ensino da história e cultura negra nas escolas.
“Por uma outra abolição”
Este documentário analisa a trajetória da representatividade negra no teatro e cinema brasileiro, destacando a luta contra a exclusão social e o racismo. Começando com Abdias do Nascimento e a fundação do Teatro Experimental do Negro em 1944, o filme explora marcos como a Lei Afonso Arinos, de 1951, primeira legislação brasileira a punir a discriminação racial como contravenção penal, e o movimento Cinema Novo. Também discute o sincretismo religioso, o reconhecimento artístico e a resistência cultural, abordando a luta dos negros por visibilidade nas artes e na política.
Filmes como “Cidade de Deus” são usados para ilustrar os desafios enfrentados pelos jovens de favelas, destacando como a luta pela visibilidade no cinema nem sempre se traduz em mudanças sociais concretas.
Resultados e impactos
O impacto do projeto foi significativo. Os estudantes ampliaram o pensamento crítico sobre questões raciais, fortaleceram a conexão com a comunidade quilombola e passaram a afirmar suas identidades com mais segurança. O protagonismo juvenil destacou-se como um dos principais resultados, com os alunos assumindo o papel de agentes de transformação na escola e em suas comunidades.
O “Fala, Milton! – Documente-se” também consolidou a cultura de participação e impulsionou propostas pedagógicas interdisciplinares. Observamos avanços no letramento racial, nas habilidades de comunicação e na autoestima dos estudantes, que passaram a se reconhecer com mais confiança.
Como modelo pedagógico, a iniciativa integra teoria e prática na promoção da educação antirracista. Ao dar voz aos jovens e valorizar suas narrativas, contribui para uma formação crítica e comprometida com a transformação social. A proposta utiliza a comunicação digital de forma ética, articulando conhecimentos das áreas de Ciências Humanas, Linguagens e Natureza. Está alinhada à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente às Competências Gerais 5 (Cultura Digital), 7 (Argumentação) e 9 (Empatia e Cooperação), além da Lei 11.645/2008, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “história e cultura afro-brasileira e indígena”.
Hoje, o projeto integra de forma estruturante a prática pedagógica da escola e segue inspirando novas ações voltadas ao protagonismo juvenil e à educação antirracista.
Por Marcelo de Mendonça Santos Meneses / Hudson Jorge de Souza Santos / Uedson Dantas Lima